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Da Sicília à Calábria - I (Catânia, Sircusa)

Volta Pela Europa em 126 dias - Parte VI
(Catânia, Siracusa)

Fui parar na Calábria por ser tagarela. Puxei assunto com uma turista no ônibus que transporta passageiros gratuitamente entre o terminal rodoviário e o centro histórico de Siracusa, na Sicília. Elke e eu decidimos conhecer a cidade juntas. Fundada em torno de 734 a. C. por ordem do oráculo de Delfos, Siracusa foi conquistada ao final do “Grande Cerco”, no qual foi morto o matemático Arquimedes. A cidade mantém ainda suas ruínas greco-romanas.
Pela manhã, circulamos pelo mercado público e pelas barraquinhas da feira antes de encontrarmos um restaurante com "ar local" para almoçar, onde os freqüentadores pareciam habituais e não apenas turistas como nós. Descobrimos que ambas estávamos sediadas na vizinha Catânia e para lá retornamos no final do dia.
                                      foto by: 
Duomo da Catania, fachada principal, 
exemplo do barroco siciliano
                              

     Naquela cidade portuária da Sicília oriental, às margens do mar Jônico e ao sopé do Etna, fizemos passeios pelo centro histórico com suas igrejas barrocas, palácios e prédios geralmente de cor cinza escurecida, obra da fuligem do vulcão. Na praça central, a “Fontana dell’Elefante”, símbolo do lugar e, segundo dizem, último remanescente do antigo costume de colocar elefantes de pedra nas portas da cidade para afugentar os invasores.
                                 foto by:                    
                      
Pretendia no dia seguinte fazer um passeio solitário ao Etna e depois partir para Taormina. Mas, Elke, que mora no sudoeste da Alemanha, na Floresta Negra, estava indo para Tropea visitar uma filha e batizar a neta e convidou-me a conhecer aquela cidade da qual eu jamais ouvira falar. Deixei para trás Etna e Taormina, o que, provavelmente, me levará um dia de volta ao sul da Itália e segui com ela de trem para a Calábria.
Adoro os mares e suas histórias: a travessia entre a Sicília e a Calábria é feita no Estreito de Messina, que une os mares Tirreno, Jônico e Mediterrâneo. Durante o trajeto, algo inusitado: o trem literalmente “embarca” num navio com toda a sua carga e passageiros. Uma vez estando do outro lado, coloca-se sobre os trilhos de novo e segue a viagem. Chegamos à Calábria.
Durante a travessia, descemos do trem
para apreciar o mar revolto do Estreito de Messina
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Mais sobre Itália, no blog, em:
Peschiera (Lago di Garda)
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Tombos & Quedas

Gravidade "10" X eu "O"

          Sou boa nisso, tropeços e quedas. Consigo cair em qualquer latitude e hemisfério. Numa pesquisa rápida posso listar vários tombos que me deixaram pontos doloridos e marcas roxas, mas fizeram rir a quem estava por perto para ver. Meu primeiro embate com a Lei da Gravidade foi ainda por volta dos cinco anos de idade. Eu tinha uma cadeira-de-balanço de palha trançada que eu adorava e nela me embalava sempre e muito rápido. Para incrementar aquela sensação boa, contra todos os princípios do equilíbrio e da gravidade inventei de “andar” com ela, mas sem encostar os pés no chão.
Agarrei-me nos dois braços da cadeira, inclinei-a rapidamente para trás e para a frente, tomei impulso e dei o maior salto que consegui tentando ao mesmo tempo “caminhar” no ar. Claro, me estatelei no chão com uma lasca de madeira enfiada atravessada na bochecha direita. Sorte minha ter sido criada num hospital. Fui logo socorrida, suturada e devolvida à minha criatividade - desprovida de senso - com uma cicatriz no rosto que só foi desaparecer lá pela adolescência.
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Cair na neve acho que nem conta, todo mundo cai. Minha única experiência com esquis foi meteórica, levou poucos segundos. Só o tempo de calçar e cair, com as quatro patas para cima, igual a uma barata tentando se desvirar. 






Mount Bachelor, Oregon (Estados Unidos)
                                                                                       
Consegui fazer a mesma coisa - sem os esquis - em plena Praça da Matriz em Porto Alegre. Fiquei ali vários minutos tentando levantar enquanto quem estava comigo ria, até que um transeunte me ajudou. Durante uma festa, na casa de amigos, caí da rede segurando uma taça. De costas, bati forte com a cabeça num vaso, ganhei um “galo” dolorido na cabeça, mas não derramou uma gota do champagne.
Em Florianópolis, tropecei num degrau, caí de bruços e deslizei vários metros pela calçada como se estivesse “pegando jacaré” na praia. O amigo que estava comigo, depois de me juntar do chão, perguntou várias vezes com ar preocupado se eu “estava bem”. Quando teve certeza, lascou: “ah, então agora posso rir, porque foi muuuito engraçado!”.
Outra vez, fui tropeçando em etapas sucessivas até que – por sorte – um homem que passava ao lado segurou forte no meu braço e impediu mais um tombo certo. Mas, eu vinha em processo de queda livre desenfreada e a cena resultou em rodopios do par pela calçada durante alguns segundos, os dois agora tentando se equilibrar. Pareceu a quem olhava que estivéssemos dançando um tango sem música.
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Cultivo marcas das viagens que me farão lembrar para sempre desses lugares onde estive e lá deixei gotas de sangue e raspas de pele, as mais das vezes dos joelhos. Tenho cicatrizes de quedas em uma rua na Ilha da Páscoa e em uma calçada de Rouen, na França.
                                  Joelhos esfolados em Rapa Nui (Ilha da Páscoa)
                                          
Em Liverpool, caí de cara e dentes no asfalto. Estilhaçou a lente dos óculos de sol, por sorte ficando tudo só no susto e em mais uma mancha roxa no rosto. A amiga que estava comigo, médica, pensou que eu tivesse sofrido uma síncope, pois, numa queda, as pessoas “normalmente” usam os reflexos e estendem os braços protegendo o rosto. Segundo ela, “ninguém cai pra frente com a cara no chão” a não ser que tenha sido vitimada por um mal súbito.
Em Buenos Aires, posando para uma foto perto da Casa Rosada, minha amiga com a câmera na mão vai orientando: “mais para trás”, “um pouco para a direita”. Quando dá o click não me enxerga. Vai olhar, estou amontoada num canteiro de flores no qual tinha acabado de tropeçar.
                                                                        Fotos by Lais Legg
    Depois da queda, 
        em algum canteiro perto da Casa Rosada 
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Florianópolis

Floripa, mon amour
“Um pedacinho de terra, perdido no mar!
Num pedacinho de terra, beleza sem par...
Jamais a natureza reuniu tanta beleza
Jamais algum poeta teve tanto pra cantar!”
(Cláudio Alvim Barbosa – Zininho)
                                                                                                     Foto by: Isadora Pamplona
Fishing Buildings
                                                 
Florianópolis (prefiro o lindo nome antigo Desterro) tem tudo o que gosto: é uma capital que mantém um ar de cidadezinha do interior com seus pescadores, casarios, sua procissão do Nosso Senhor dos Passos, Festa do Divino, Boi de Mamão. Tem calçadão, trilhas, morros, cachoeiras, lagoas. Tem córregos, paisagens bucólicas, olarias, bares, restaurantes.  Tem feiras, tem parque tecnológico de desenvolvimento de software.
E tem mais de uma centena de praias, cada qual com uma característica que a torna especial. Mas, “São Pedro” joga contra. Turista que vem só pelas praias corre o risco de pegar uma temporada de chuva e amargar as horas no quarto do hotel ou passeando num shopping center. Fora isso, a cidade guarda seus segredos para quem quiser desvendá-los.
O centro histórico proporciona passeios interessantes: a Praça XV e sua figueira centenária, o Mercado Público, o Museu Victor Meirelles, que funciona na casa onde o artista nasceu. O autor da tela mais popular do pais (A Primeira Missa no Brasil), deixou um precioso acervo de quadros históricos, aquarelas, esboços, retratos e panoramas, inclusive sobre Florianópolis.


Victor Meirelles -
"Passagem de Humaitá"








                             

                          Victor Meirelles - "Vista do Desterro"
                                           

           
                    Victor Meirelles -
          "O Casamento da princesa Isabel"



          O grande pintor morreu na miséria e parte de seu acervo foi destruído por abandono. Somos um povo que não costuma venerar seus gênios e mistura política com arte. Destituíram-no das merecidas honras no início da I República por ter estudado e trabalhado sob os auspícios da Academia Imperial de Belas Artes, criada por Dom Pedro II.
Ainda no entorno da Praça XV, pode ser admirado, na Rua dos Ilhéus, o estilo das antigas casas dos primeiros imigrantes portugueses. Na rua oposta, vale uma visita ao casarão colonial conhecido como Palácio Rosado, que hoje abriga o Museu Cruz e Souza. O local serviu de moradia para sucessivos governos até a metade do século XX. O prédio tem escadarias em mármore de Carrara e lustres de cristal italiano. Exibe 28 portas trabalhadas que dão acesso para 28 sacadas com vista privilegiada para a praça e para a catedral.


                                                 Rua dos Ilhéus, Praça XV
                                                             Mercado Público
                                                         Museu Cruz e Souza
Uma praia diferente a cada dia

            Ah, as praias são um capítulo à parte! Não há gaúcho que venha e deixe de comparar com o litoral mais ao sul, de Torres em diante, tudo só imensidão de areia e águas turvas. Aconteceu comigo. Vinha com amigos na década de 1970 em direção a Zimbros, próximo a Porto Belo. Fazíamos pit stop em Floripa para comer camarão na Lagoa. Tudo lindo, mas muito diferente.  O aterro na avenida Beira Mar Norte era recente. A rua onde moro tinha só dois ou três prédios.
            Particularmente, gosto mais das praias do sul e do leste: Armação, Matadeiro, Campeche, Joaquina, Barra da Lagoa, no mínimo um dia para cada uma. Saindo da Armação, chega-se à Ilha do Campeche, ainda hoje uma espécie de paraíso com vegetação da mata Atlântica onde é comum topar com macacos e quatis. As águas da praia ali são limpas e tranqüilas de cor verde e turquesa, dá pra ver os peixes no fundo. É possível praticar mergulho contemplativo e tem diversas opções de trilhas com guia.
Matadeiro, paraíso dos surfistas, é outro recanto paradisíaco. Saindo dali, subindo o morro, chega-se à Lagoinha, mas é um trecho bastante puxado e é preciso portar água e lanche. Uma forma mais fácil de chegar à Lagoinha é saindo do Pântano do Sul. Uma vez no Pântano, a pedida é o Bar do Arante, especializado em frutos do mar.
As praias ao norte da ilha de Santa Catarina são as mais procuradas pelos turistas e têm melhor infraestrutura. Gosto de Ingleses, com águas de um azul inigualável. Daniela é uma gostosura para se banhar, parece uma piscina. Tem mais: Praia do Forte, Santinho, Jurerê, Canasvieiras, sempre superlotadas nas temporadas.
Barra da Lagoa, Santo Antônio de Lisboa, Sambaqui e Ribeirão da Ilha proporcionam belos passeios por lindas paisagens, além de uma imersão na cultura açoriana ainda preservada pelos moradores locais. São recantos tranqüilos, com imagens da pesca artesanal e do cultivo de ostras, que podem ser preparadas e degustadas na hora. Florianópolis é o maior produtor de ostras do país.





Paisagem no Ribeirão da Ilha
   










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As Fortalezas

A par das belezas naturais que a ilha de Santa Catarina oferece, o conjunto arquitetônico de fortalezas construídas no século 18 pelos portugueses é hoje um dos seus atrativos mais importantes. É para lá que, principalmente nas temporadas do verão, dirigem-se dezenas de veleiros, escunas e pequenas embarcações de pescadores transportando centenas de turistas e visitantes: Santa Cruz (na ilha de Anhatomirim), São José da Ponta Grossa (em Jurerê) e Santo Antônio (na ilha de Ratones Grande) restauradas e preservadas pela Universidade Federal (UFSC), são as mais visitadas.
                   Fotos by:                                     
                                       



      Fortaleza de São José 
da Ponta Grossa, em Jurerê

Fortaleza Santa Cruz, na Ilha de Anhatomirim
   Para proteger o acesso por mar do lado norte haveria o apoio dos canhões instalados nessas edificações e, no lado sul, foi construída a fortaleza de Nossa Senhora da Conceição (ilha de Araçatuba). Nada disso, entretanto, impediu a invasão dos espanhóis que, com uma grande esquadra, em 1777, ocuparam a ilha de Santa Catarina, invadida a partir da praia de Canasvieiras praticamente sem enfrentar qualquer resistência. O episódio é contado pelos guias turísticos como piada sobre o inexpugnável sistema defensivo português da época.
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Mais sobre Brasil (sul), no blog, em:
Foz do Iguaçu
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Dicas/esperiências:
Alimentação: a par dos muitos restaurantes de cozinha internacional, para mim valem mesmo as experiências gastronômicas com sabor local. Mas, também tenho grande satisfação ao encontrar cozinhas tradicionais, com pratos primorosamente preparados, bons vinhos e preços honestos.
Bar do Arante - no Pântano do Sul, especializado em frutos do mar e com uma decoração peculiar, formada por milhares de bilhetes ali deixados pelos fregueses, famosos ou desconhecidos, ao longo dos anos.



Ostradamus - no Ribeirão da Ilha, onde são servidas ostras depuradas, cultivadas na magnífica paisagem do entorno.



Isadora, no Ostradamus,
pela primeira vez decidida a experimentar ostras




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Sobremesa "encharcada"
Taberna Ibérica - (Comida Portuguesa, com certeza) - no Centro, ambiente emoldurado por vista privilegiada da Ponte Hercílio Luz e entorno. Às sextas-feiras, serve rodízio de bacalhau.

Da Sardenha à Sicília

Volta Pela Europa em 126 dias - Parte V
Ao fundo, o porto de Cagliari
                                          
Difícil conseguir, com palavras, descrever a cena em toda a sua intensidade, estranheza e mesmo beleza. Cheguei para o embarque a poucos minutos da partida, marcada para as 19h. Depois de instalar-me na cabine, com mais três pessoas, desci para assistir a partida da nave.
Enquanto esperava, olhava o pôr-do-sol, subia e descia dos vários andares para observar a vista por todos os ângulos possíveis. Vi uma pequena barca, daquelas que fazem o reboque dos navios pelos canais do porto aproximar-se de um dos lados. Duas ou três pessoas, marinheiros suponho, observavam, conversavam entre eles e o barco retornava ao cais.
Depois de repetir-se várias vezes essa mesma cena, me dei conta de que estávamos atrasados, a nave já deveria ter partido. Numa dessas idas e vindas, o barquinho trouxe também um rapaz com um capacete e equipamentos de solda.  Então, olhei bem para baixo de novo, compreendi tudo e levei um susto: o que eles estavam observando era um "rombo" no casco do navio e iriam fazer o reparo ali mesmo. Nada de estaleiro, equipes, segurança.
Vários passageiros, como eu, debruçavam-se no parapeito a olhar para baixo. Saltavam faíscas para todos os lados, choviam reclamações, xingamentos em dialetos sardo e siciliano. Eu, obviamente, não entendendo nada, mas deduzia que seriam piadas, logo rebatidas com desaforos. Tudo aos gritos, que ecoavam no silêncio do cais. Eu podia me sentir propriamente na Itália.
Pior, pareceu-me que rasgavam pedaços de papelão e enfiavam no furo, para fazer vedação. Passavam por cima uma espécie de cola, com um pano molhado, sei lá tinta, cuspe, esparadrapo, band-aid. E eu teria que viajar naquilo. Uma vez embarcada não tinha mais jeito, não iria passar pelo fiasco de descer, pagar mais uma diária de hotel e terminar num avião. Ainda teria que dormir ali durante toda a noite.
O "reparo" levou bem umas duas horas. Afinal a nave terminou saindo e todos se retiraram para suas cabines. Ouvi comentários de que essa cena é bastante comum e que ate hoje "nunca aconteceu nada". Ufa! Caí dormindo e esqueci completamente do “furo”. 
                  






Companheiras de cabine: Stella, Marcela, Sara e eu

                                   Depois de uma "solda" improvisada no casco,
                          a nave chegando na Sicília
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Enquanto estava pendurada na amurada do convés, trocava comentários com outros passageiros e um siciliano puxou assunto. Aprendi ali o efeito que as palavras mágicas “viajando sozinha” e “brasileira” provocam nos italianos.  Os olhos brilham. E, não importa como tenha começado qualquer conversa, a segunda pergunta será sempre: “é casada”? A depender da resposta, eles sentem-se mais à vontade para, hum, por assim dizer, “marcar território”.
Italianos fazem bem para o ego. No sul da Itália, especialmente, jamais percebi que minha idade tivesse qualquer importância, eu era apenas uma mulher e estava sozinha. Ouvi muitos murmúrios de “bella dona” enquanto passava incólume com meu indefectível chapéu de turista. Posso dizer que fui assediada frequentemente e, para alguns, tive que deixar claro que eu não buscava ali esse tipo de aventura.
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A propósito, transcrevo trechos da Danusa Leão sobre os homens italianos, no livro Fazendo as Malas, que arrefeceram um pouco do meu entusiasmo e me trouxeram de volta à verdadeira dimensão dos galanteios:


“Os italianos continuam os mesmos: dizem galanteios, se jogam aos pés, cantam, prometem amor eterno, casamento e felicidade. É que eles vivem uma vida duríssima com as italianas, que os tratam no chicote – é a terra da mamma -, e, quando vêem uma estrangeira, ficam loucos. Os homens romanos, lindos, são, veramente, um caso à parte. Românticos até quando mentem – ou não mentem, porque acreditam no eterno amor que juram naquele momento. E todos amam de paixão, mas no dia seguinte não sabem se suas amadas da véspera estão vivas ou mortas. 


“Se você está comendo sozinha numa trattoria e passa um homem, ele abre um sorriso e te diz buon giorno. E não é paquera, porque ele continua seu caminho, dizendo buon giorno a todas as mulheres; é uma maneira de viver, faz parte. E, quando estão parados numa esquina e passa uma mulher, os homens fazem cara de grandes conquistadores e dizem ‘Belíssima’. Também para nada, só pela alegria de viver.”
                  foto by:
               Marcello Mastroianni, para mim eterno (e belo)
               protótipo do galã italiano                              
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Mais sobre Itália, no blog, em:
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Entre Londres e Paris

Volta pela Europa em 126 dias - Parte I
                                                  Foto by Liu Hogjie

          Viajar foi sempre um sonho desde criança. Vivi viajando, mas em pensamentos. De verdade, poucas vezes. Poucos dias, boa companhia, roteiro traçado e malas imensas. Desta vez, fiz diferente: botei os dois pés na estrada, sozinha, com planejamento mínimo, mala de dimensões modestas e uma pequena mochila nas costas. Durante quatro meses andei por quatro países, percorri 40 cidades. Aos 60 anos. Foi o presente que me dei de aniversário.
Encontrar outras mulheres viajando sozinhas me deu muita tranquilidade, vi que isso é comum na Europa. Mochileira amadora, não tive maiores problemas, fui aprendendo a contornar, tomar decisões, aproveitar o momento apesar deles. Tentei encarar como lições os pequenos transtornos e mudanças de percurso. 
Trouxe tudo o que pude. Na lembrança. Mais do que conhecer tantos lugares me valeu a experiência de neles ter estado sem outra companhia constante que a mim mesma. Feri meus pés nas pedras, entrei em catedrais e castelos. Passei por vilarejos, velhos portos, belas praias, ilhas, ruínas. Levei tombos. Atravessei mares, cruzei rios, embriaguei-me de azul, sol e paisagens.
Custei a engrenar no voo solo. Comecei por Londres, Paris e Roma, cidades já conhecidas e onde encontrei amigos brasileiros. Quando fui deixada sozinha, numa cidade estranha, na casa de pessoas às quais recém tinha sido apresentada, deu pane. Vontade de voltar correndo para a minha casa. Mas não me permiti o direito de fazer isso comigo mesma: desistir sem ter tentado. Ajustei meu GPS interior e fui obedecendo às coordenadas.
Primeiro mês – Reino Unido e um toque de Paris
O itinerário teve base em Londres, onde fui visitar minha filha que ali estudava. Aliás, ela foi mentora indireta dessa idéia quando largou um emprego estável, colocou uma mochila nas costas e viajou durante quase cinco meses pela América Latina. Meu sonho já esmaecido de viajar pelo mundo começou a ficar colorido de novo. Tomei a decisão, fiz ajustes no orçamento e o sonho foi se redesenhando sobre contornos de realidade.
Logo no meu segundo dia no Reino Unido conhecemos Canterbury, cidadezinha interessante, com ares medievais, onde fizemos muitas fotos. Nos dias seguintes, passeios por bairros como Portobello Road e Nothinghill, mais visita ao V&A Museum (site), grande mostra de artes decorativas e design, com uma coleção permanente superior a 4,5 milhões de objetos.
                                                                                                    Fotos by Isadora Pamplona
Portobello Road

          Segui de ônibus para Paris onde amigos de Floripa generosamente cederam seu apartamento enquanto viajavam por uns dias. Sempre achei que só os muito ricos tivessem um apartamento disponível em Paris, mas quem tem amigos tem tudo. Obrigada Vera e Pedro. A Rue du Champ de l’Alouette, próxima à estação Glacière, passou a fazer parte do meu mapa particular das boas lembranças. 
Pedro e eu fomos a Orly esperar minha melhor amiga, Lais, que vinha de Porto Alegre. Também chegaram de Londres minha filha e uma amiga. Em Paris é sempre domingo (pelo menos para turistas), dia perfeito para passeios ao Jardin du Luxenbourg, Parc Montsouris, Quartier Latin, Cemitiéres Père Lachaise, Montparnasse eTulheries. 
Paris - Lais, Luz e eu
                            Foto by: Ira
vista do pátio interno do prédio na Rue du Champ de l'Allouette
                             Fotos by: Isadora Pamplona        Parc Montosouris e Jardin du Luxembourg
Almoço (a € 10,00), no Tire Bouchon
                                

             

     Era primavera e um bom programa nesta época é visitar o museu de Monet, em Giverny. De trem, saindo da Gare St. Lazare, chega-se a Vernon, a cerca de 50 minutos de Paris. Dali, pega-se um  ônibus até a casa do mestre do Impressionismo e, em seus jardins, pode-se admirar representações vivas de muitas de suas obras.                                                         
Casa e Jardins de Monet, Giverny


                   Foto by: Lais Legg





          No retorno a Londres, chegamos muito cedo, ainda estava escuro e os metrôs nem tinham começado a funcionar. Pegamos um ônibus. Quando descemos, em Nottinghill, não encontrávamos o endereço do b & b e saímos correndo arrastando as malas, pois achávamos que um cara que desceu no mesmo ponto iria nos assaltar. Caminhamos em direção a uma padaria numa esquina próxima, único lugar aberto, pois o fornecedor entregava os pães. Paulo - para nossa sorte um cordial padeiro português - nos ajudou procurando o endereço no GPS, levou-nos de carona e ainda nos deu dois pãezinhos.
Muitos passeios: Buckingan Palace, London Bridge, Abbey Road, mais fotos em frente a casa do Paul McCartney e visita ao museu que funciona na casa onde morou Freud. As comemorações pelo meu aniver, no dia dos meus 60 anos, começaram com uma visita ao Museu de Cera Madame Tussaud, seguido de um giro no Big Eye para ver Londres do alto. À noite, ópera em Covent Garden (The Tsar’s Bride) e jantar no restaurante do James Oliver. 

Na manhã seguinte, acordamos cedo e começamos - por Cambridge - nosso giro no Reino Unido.                                                                         Fotos by Isadora Pamplona                                            
London Eye

No Museu de Cera Madame Tussaud



Como diz Lais: já estivemos a poucos passos de 50% dos Beatles (Paul e Ringo), eternizados no Museu Madame Tussaud - e, em carne, osso, voz e guitarras -, no Beira Rio e no Gigantinho, em Porto Alegre.




The Royal Family
Putin e eu























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Moscou (Москва)

Atrações incomuns                                                        fotos by: Isadora Pamplona 
     Tudo começa no Kremlin, onde fica o marco zero e em cujo interior visitamos todas as catedrais (site). A mais conhecida, na Praça Vermelha, é a catedral de São Basílio, de desenho arquitetônico singular e cúpulas multicoloridas.  Bem ali pertinho está o shopping Gum que, depois do regime comunista, abriga lojas de griffes e virou um animado centro de consumo. Lugar ideal para comprar boa e autêntica vodka.                         
Praça Vermelha (Krasnaya Ploshchad)
   







          Por toda a cidade se vê igrejas com aquelas cúpulas características, algumas douradas, como a Catedral do Cristo Salvador. Os russos se orgulham ao afirmar que nada é ”folheado”, aquilo é ouro mesmo. Um dos cenários mais bonitos é o do Convento Novodevichy, construído nos séculos XVI e XVII, à beira de um lago. O local teria inspirado Tchaikovsky ao compor o Lago dos Cisnes. 
Catedral de Cristo Salvador






                                                          Novodevichy Convent
                                
Parque dos Monumentos
No Mercado das pulgas (Vernissaj), além das indefectíveis matrioshkas (várias bonequinhas encaixadas uma dentro da outra), e das réplicas de ovos fabergé, encontra-se roupas típicas e peças de antiquário, incluindo tapetes do Cáucaso, a preços que não se vê pelo resto da cidade. 
No Parque dos Monumentos, estão “depositadas” estátuas e monumentos de antigos líderes do regime comunista.                                  
     Para mim Moscou passou a idéia de uma grandiosidade que se perdeu no passado. Largas ruas, velhos carros. Prédios monumentais, alto-falantes nas fachadas. Mas, é difícil não se emocionar vendo seus marcos: a imponente estátua de Pedro, o Grande, às margens do rio, ou a fachada do Teatro Bolshoi. O Parque Gorki vale um passeio e a Galeria Tretyakov, museu dedicado à preservação da arte russa, surpreende pelo seu acervo.  Além de Chagall e Kandinsky, admiramos obras de rara beleza.                                                                        
Galeria Tretyakov - Arkhipov - "Visit"
                                   
                                     



                 














       Galeria Tretyakov -
      Vodkin - "Red Horse"












Sorte de encontrar dedicados cicerones
Nossa programação viu-se enriquecida graças à gentileza de uma russa que conheci na cidade francesa de Nice. Larissa levou-nos a todos os lugares que mencionávamos ter interesse em ver, adicionando a cortesia de um passeio de barco pelo  rio Moscou e a visita-surpresa a um recanto muito antigo da cidade. Tudo ali é tão preservado que o lugar serve de locação para filmagens de época. Percorremos diversas estações de metrô, que parecem galerias de obras de arte e constam dos roteiros turísticos.
                                       Estação de Metrô - Novoslobodskaya
                       Estação de Metrô - Kievskaya

Nossa “guia” trabalhou no Museu de História, o que foi uma sorte para nós, pois tínhamos explicações detalhadas para tudo o que víamos. Conhecemos restaurantes típicos, um do Uzbequistão, região onde Larissa morou na infância. Provamos todos os pratos possíveis da culinária local, incluindo os deliciosos blini (espécie de crepe, com diversos tipos de recheio), pelmeni (pequenos pastéis cozidos servidos com molhos) e borsch (sopa degustada com um creme delicioso).      
                                       
                                                          Degustação/culinária russa 

Toda a família nos ciceroneou pelas ruas: o marido Mikhail dirigia, enquanto o filho Ilya e a namorada ajudavam na tradução para o inglês. Em requintes de delicadeza, Larissa levou-nos a almoçar no Café Esenin. Isso porque o nome de minha filha é uma homenagem à bailarina Isadora Duncan, que morou na Rússia, onde casou-se com o poeta Sergei Aleksandrovic Esenin.
De Moscou, seguimos de trem (bilhete comprado pela internet) para St. Petersburgo. Encerrando sua “missão”, nosso anjo-guia sugeriu os passeios e providenciou reservas, além de nos acompanhar à estação. Só nos deixou quando o vagão começou a se deslocar pelos trilhos, depois de abraços, acenos e reiterados convites para que se conheça a paisagem de Moscou no inverno.
Sem esse auxílio certamente teríamos enfrentado dificuldades para nos localizar naquela estação imensa onde as placas indicativas estavam escritas em alfabeto cirílico. Nem teríamos entendido quando o fiscal, ao examinar nossos passaportes, comentou: “Ah, Brasil ... Ronaldinho... meu sonho é conhecer um dia!”
Inglês ainda é pouco falado
Fomos surpreendidas logo ao chegar no aeroporto e constatar que poucas pessoas falam inglês. Mesmo em locais considerados turísticos, as informações são repassadas num vocabulário bem básico e nem todas as perguntas são respondidas ou sequer entendidas. Apela-se, então, para os cardápios visuais e à mímica. Pedir um simples suco de laranja no MacDonalds revelou-se uma situação hilária. Em um restaurante, a garçonete chegou a colocar a mão na cintura e ergueu o braço oposto com o cotovelo levantado para “dizer” que só tinha chá servido num “bule”. 
O país abriu-se ao turismo internacional há alguns anos, mas quase não identificávamos estrangeiros e, mesmo nas principais atrações, russo era a língua mais ouvida. Grande parcela do turismo ainda é interno. O estranhamento de viajar para um país tão diferente é grande. E começou ainda no aeroporto de Heatrow, em Londres, quando fomos revistadas, passamos por detectores e tivemos que responder a muitas perguntas.
Os agentes londrinos pareciam achar muito estranho o fato de que brasileiros não necessitam de visto para visitar a Rússia, enquanto isso é exigido para os turistas da União Européia. Ao desembarcarmos em Moscou, depois de um dia inteiro de viagem, a sensação de estar fora do nosso ambiente chega ao nível máximo. Não conseguíamos sequer pedir uma água mineral, pois era difícil encontrar quem falasse inglês. E nós, obviamente, não falamos russo.
            Entregamos um papel com o endereço do albergue ao motorista, o problema é que ele não encontrava a rua e ficava resmungando. Depois de mais de uma hora de trajeto desde o aeroporto e várias voltas por imensos quarteirões, fiquei imaginando que ele nos jogaria porta afora do carro com as nossas malas. Às 23h. Mas, felizmente, chegamos e, no albergue, o inglês da recepcionista revelou-se precário, mas suficiente. Ela nos deu mapas, indicou a estação de metrô mais próxima e as principais atrações.
            No dia seguinte, a dura realidade: encontrar um lugar para tomar café, almoçar, decifrar nomes das estações de metrô e das ruas. Tudo em russo e com raras indicações em inglês. Tínhamos o esquema das linhas de metrô e havíamos feito um cursinho-relâmpago do alfabeto cirílico, copiado da internet. Com isso, era possível se movimentar na cidade sem passar fome.
Mas, quem disse que podíamos fazer um passeio pelo rio Moscou? Frustradas, desistimos depois de percorrer a beira do cais e ouvir apenas russo. Não sabíamos quanto pagar, onde descer, nada. Então Larissa apareceu e tudo ficou mais fácil.
Passeios de barco pelo rio Moscou                                           
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Ao final da tarde, o público se aglomera à espera da cerimônia, espécie de "troca da guarda" na pira próxima ao Mausoléu de Lenin.
                                                                 
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Mais sobre a Rússia, no blog, em:
Peterhof - 
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Dicas/experiências:
Atrações:
Tretyakov Gallery - O State Tretyakov faz as vezes de um museu dedicado à preservação da arte russa e possui um acervo, atualmente dividido em dois prédios, com aproximadamente 160 mil peças representativas desde o século XI. A New Tretyakov, no prédio principal, abriga peças do século XX, incluindo representantes da vanguarda russa e do realismo socialista. Além de Chagall e Kandinsky, admiramos obras de rara beleza entre desenhos, pinturas, esculturas e outras.
Alojamento:
Capital Hostel – Albergue que registrava menos críticas entre os que encontrei ao pesquisar na internet. Com preço acessível, permite chegar ao Kremlin em poucos minutos a pé e fica próximo das estações de metrô Tretyakovskaya e Novokuznetskaya (www.capitalhostel.com).
Alimentação:
Elki-Pálki - Rede de restaurantes com buffet onde se pode experimentar pratos da cozinha local por preços acessíveis. Procuramos por indicação de uma estudante russa que minha filha conheceu em Londres (www.elki-palki.ru, a página só aparece em russo, mas dá para dar uma espiada no menu e usar o tradutor do Google).
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